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#16
D
- Estás bem Mia? - peguei-lhe no queixo para que a pudesse olhar nos olhos.
- Não... Ele beijou-me... E continuo a sentir a mesma coisa.
- Calma. - abracei-a. Ela estava tão frágil, que merda. - Vai tudo ficar bem.
- Obrigada Duarte. - ela afastou-se. - Olha... eu percebi, quando tu bateste no Rui, que... que tu queres ser muito mais do que meu amigo.
- Não me importava. - e era verdade, não me importava mesmo nada. Tipo, ela era linda. E nós tínhamos uma ligação.
- Mas tu sabes que eu não me sinto propriamente preparada para... sermos namorados? Principalmente depois disto.
- Sim, sei, e não te estou a forçar a nada. Era só que não me importava. - ela sorriu, um sorriso pesado. - Se quiseres podes dormir outra vez em minha casa, não tem problema.
- Não, não é preciso Duarte. Hoje vou dormir a casa, a minha mãe deve ter ficado preocupada. Mas obrigada. - entretanto, tinha tocado.
- Vamos?
- Não me apetece nada... Mas tem de ser. - fomos para dentro e a aula era de Físico-Química. (...)
- Finalmente, porra. - disse ela.
- As aulas de Físico-Química são sempre tão secantes, fogo!
- Vou ter de concordar contigo. Olha, sabes o que é que me estava a apetecer agora?
- O quê?
- Um charro.
- É, e depois na aula de Português nem te aguentas nas canetas. Nem penses.
- Oh. Cortes pá.
- Quanto muito um cigarro.
- Olha, foda-se, é que é mesmo isso. Anda comigo. - puxou-me por um braço e eu não tive alternativa se não ir com ela.
M
Sinceramente? A minha vontade era de morrer. A Leo tinha morrido, o Rui tinha-me beijado. E eu ainda sentia o mesmo por ele, depois de tudo. A sério, eu sou uma merda. Podia-me afundar em cigarros, hoje, amanhã e depois. Ah e o Duarte... A sério, ele tinha mesmo que gostar de mim? Eu... eu sou uma aberração. Mas ele... ele é uma pessoa ótima e depois é cá um gato. Não podia negar que também não me importava de ter algo com ele. Mas... eu não o queria usar. Ele não merecia isso. Era melhor esperar.
No meio dos meus pensamentos, tínhamos chegado até à parte de trás do pavilhão de Educação Física, onde não haviam câmaras e estávamos em segurança pois nunca ninguém ia para lá, nem mesmo os fumadores. Tirei o meu maço de tabaco, o meu habitual Chesterfield vermelho, e perguntei ao Duarte:
- Queres?
- Vou acabar por ficar viciado mas olha, foda-se. - dei-lhe um cigarro e tirei o isqueiro da minha mala e acendi o meu cigarro. Depois, dei-lhe o isqueiro e ele devolveu-mo, após ter acendido o seu cigarro. Era esta a vida que eu levava, a vida do vício, sempre a merda do vício. Do tabaco, da erva, das drogas leves, às vezes até pesadas, e, raramente, dos cortes. Era assim a minha vida, quando algo corria mal. Sempre esta puta de vida.
- Não me importava. - sussurei.
- O quê? Disseste alguma coisa?
- Não me importava.
- Não te estou a perceber. - disse ele, confuso.
- Tu não te importavas, e eu também não. - ele ficou calado, a olhar para mim, com os seus olhos cinzentos a fitar-me e de cigarro na mão. - Mas eu não te quero magoar. - ele aproximou-se.
- Não me vais magoar, eu sei que não.
- Eu magoo as pessoas.
- Magoas nada. - e colocou um dedo nos meus lábios. A outra mão deslizou até à minha cintura, ainda de cigarro na mão.
#15
M
Às 12:18h acabámos de comer pizza e o Duarte foi ao quarto dele arranjar a mala para a tarde e depois desceu.
- Bom, vamos andando? - disse ele.
- Sim, é melhor. Vou-me só calçar.
- Ok, vai lá.
Calcei-me e fomos para a estação do metro do Lumiar e fomos até ao Saldanha. Às 12:33h estávamos lá e andámos um pouco até ao meu prédio. Por fim, chegámos lá e eu abri a porta do prédio.
- Pronto? - disse.
- Sempre, bora lá.
Subimos até ao 3º andar e abri a porta de minha casa.
- Ahhh - suspirei - ainda bem que não está ninguém em casa.
Fui diretamente ao meu quarto e, como estava calor, vesti um top branco transparente atrás, uns calções de ganga clara com rasgões e os meus Vans old skool pretos. Fui à sala e o Duarte estava lá sentado, num dos sofás.
- Que tal? - perguntei, com um sorriso.
- Maravilhosa, como sempre.
- Vou só arranjar os livros e pô-los na mala, ok?
- Ya.
À tarde tínhamos Português e Físico-Química A, por isso, pus para a minha mala os livros e os cadernos das disciplinas. Depois, peguei na caderneta e escrevi, na parte do motivo de faltar, "má disposição e vómitos". Escrevi as aulas a que tinha faltado e as horas e depois peguei num papel que a minha mãe tinha assinado e fui à cozinha buscar o papel vegetal, para poder copiar. Passei a assinatura para o vegetal e depois foi só copiar. Perfeito.
- Bom, já tenho tudo e já fiz aquilo da justificação. Vamos andando? - levantou-se.
- Foste rápida! Bora.
Às 12:50h fomos para a estação do metro para Odivelas. (...) Chegámos à escola às 13:20h e a Vanessa veio logo ter comigo, como se estivesse muito preocupada.
- Então, querida, o que se passou?
- Olha, vai-te foder. - estava sem paciência.
- Uma pessoa aqui preocupada contigo, e tu és assim?!
- Para vacas como tu, sou assim. Não tenho de te dar justificações nenhumas, não és minha mãe.
- Mas diz lá, o que é que se passou? Ou andaste a cortar os pulsos outra vez? - e sorriu. Já me estava a passar.
D
A Vanessa já estava a abusar, tinha de parar aquilo, antes que a Mia fizesse alguma coisa.
- Olha lá, mas tu és alguém pra lhe estares a perguntar isso? Ela não tem de te dar justificações do que aconteceu ou do que deixou de acontecer. Agora põe-te no caralho e não fales mais pra ela, entendido?!
- Ohoh, já precisa de defensor, é?
- Não, mas se calhar se ela te tocasse com uma mãozinha que fosse, já não dizias isso, não era?
- Ui que medo!
- Põe-te no caralho do teu namoradinho e não me chateies. - disse a Mia. Depois fomos para dentro da escola e ela foi até à sala dos professores ter com a diretora de turma, enquanto eu fui ao bar comer. (...) Após ter falado com a DT, veio ter comigo e disse:
- Já a comer?!
- Epa, tenho de me manter alimentado! - ela riu-se. Entretanto, apareceu o Rui e ele pediu o que queria à senhora do bar e foi-se sentar numa mesa, sozinho. Ele acabou de comer e depois veio ter connosco e disse:
- Olá. Mia, preciso de falar contigo.
- Eu não tenho nada para falar contigo.
- Mas tenho eu. - silêncio da parte da Mia, mas ele quebra-o:
- Olha, anda para o átrio, não está lá ninguém e podemos falar só os dois. - não liguei ao facto de ele me estar a excluir.
- Pronto, está bem, eu vou. - arrumou a cadeira e foi com ele, enquanto a fiquei a terminar o meu croissant misto.
M
Mas o que é que aquele estúpido rançoso quereria agora falar comigo? Eu não tinha nada, mas mesmo nada, para falar com ele, eu nem sequer conseguia olhar para ele durante muito tempo, quanto mais falar com ele. Ele dá-me raiva. Odeio-o, por tudo o que ele me fez.
- Olha Mia, - começou ele - sabes que quando aquilo aconteceu, eu não queria que nós terminássemos assim. Aliás, queria que tivéssemos ficado juntos, como sempre tínhamos estado até então.
- Pois, mas na altura não foste capaz de me dizer isso, não foi? - eu era fria.
- Mas nunca é tarde demais.
- Às vezes é. Aliás, para nós, nunca foi tarde demais, porque nunca houve um nós. Nunca. Tu nunca acreditaste em mim, quanto mais em nós. Rui, a sério, não tenho nada para falar contigo. - quando proferi as últimas palavras, ele agarrou-me no braço. - Larga-me. Larga-me antes que haja merda.
- Mia, por favor. Dá-me mais uma oportunidade.
- Não, Rui! - sacudi o braço. - Tu tens a mais pequena noção do que eu sofri?! Tens a noção do quanto me magoaste, quando me traiste, quando fodeste com todas as que te apareciam à frente e eu não sabia de nada?! Quando me bateste?! E eu sempre acreditei, sempre, que tu gostavas de mim! Foda-se Rui, o que eu mais quero é que tu saias da minha vida! - já me estava a passar.
- Mas Mia, meu amor, tu sabes que quando eu fiz isso, eu não estava em mim, juro-te!
- Ah, então não estiveste em ti aí umas 5 vezes? Foi?! Olha Rui, vai-te foder. Eu de ti não quero nada.
- Eu sei que tu ainda me amas...
- Não me venhas com falinhas mansas! E só para que fique esclarecido, eu odeio-te. Odeio-te. Amei-te tanto, que agora odeio-te.
- E afinal ainda não saí da tua vida. - escorreu-me uma lágrima pelo rosto, uma lágrima de raiva.
- Eu juro-te que se não fosse crime matar pessoas, eu já te tinha morto.
- Não sejas assim, Mia. Eu amo-te, tu amas-me... - falava baixinho, de modo a cativar-me. Ele conhecia-me demasiado bem. Demasiado. - Dá-me mais uma oportunidade, suricata. - oh não, suricata não. Quando andávamos, ele chamava-me suricata porque, segundo ele, os suricatas são fofinhos. Estava a meros milímetros dos meus lábios. - Eu amo-te. - e depois um arrepio no meu corpo. Dois. Lábios juntos e fogo de artifício no meu coração. Lágrimas a escorrerem pelo meu rosto.
- Pára, chega! - gritei tão alto, que o Duarte veio logo ter comigo.
- O que se passa Mia? - ele via as minhas lágrimas, cada vez mais fortes, a escorrerem pela minha face. - O que é que lhe fizeste?! - gritou-lhe.
- E tu és...? - deu-lhe desprezo.
- Sou o Duarte e não tenho prazer nenhum em conhecer-te.
- Rui. Igualmente.
- O que é que lhe fizeste?! Explica-te!
- Só a beijei, mais nada.
- SÓ a beijaste?! Deves estar é a gozar.
- Não, o que é que tem? - só ouvi alguém a cair no chão. Olhei em frente e o Rui estava caído no chão, a sangrar brutalmente do nariz.
- Nunca mais te chegas ao pé dela, ouviste?! Tu e a outra puta! Fodam os dois à vontade mas não se metam com ela! Entendido? - percebi então que o Duarte sentia por mim algo muito mais forte do que amizade. Muito mais forte. O Rui, atordoado, respondeu:
- Está bem, mas vais pagá-las. E vão-te sair bem caras. - levou a mão à face e viu sangue. Sangue que um dia escorrera dos meus pulsos. As lágrimas já tinham cessado.
- Sim sim. Vamos embora Mia. - pegou na minha mão e levou-me lá para fora.
#14
D
Com aquilo tudo, eram já 11:03h e já tínhamos acabado de fumar. Não sabia o que havíamos de fazer, pois ainda era muito cedo para almoçar, então perguntei-lhe:
- O que queres fazer agora?
- Não sei, o que tu quiseres.
- Eu não sei o que fazer, por isso é que te perguntei ahah.
- Ahah. Não tens jogos aqui em casa?
- Acho que tenho cartas e Monopólio. O que preferes? - perguntei.
- Visto que não sou muito boa a cartas, pode ser Monopólio. - fui ao meu quarto e trouxe o Monopólio. Começámos a jogar. (...)
- Muahahahah, ganhei-te! - disse ela, toda contente.
- Só porque eu deixei!
- Desculpas! - vá, eu não a tinha deixado ganhar, perdi, pronto.
- Enfim, são 11:30h, se calhar era melhor encomendar o almoço.
- Não cozinhas, menino Duarte?
- Não, menina. - disse, com um ar todo chique. - Vá, o que é que queres comer?
- Sei lá... Uma cena qualquer, não é preciso grande coisa.
- Tásse bem, vou encomendar pizza. Queres de quê?
- É a que tu quiseres, tanto faz.
- Eu acho que tinha pr'aqui algures um menu da Telepizza... - desci até à cozinha e encontrei-o, ao lado da televisão. Voltei a subir as escadas. - Bem, escolhe. - ela olhou para as pizzas todas e disse:
- Epá, são todas tão boas... Eu gosto de todas, mas a de Pepperoni e a 4 Queijos são a minha perdição.
- Então vou encomendar uma média de Pepperoni que eu também gosto. E para beber, o que queres? - perguntei.
- Sumol de ananás.
Telefonei para a Telepizza e falei com a senhora e ela disse que dentro de 20min, meia hora, estaria um senhor à nossa porta com a pizza. .
- Pronto, já está, daqui a pouco temos aí um homenzinho a bater-nos à porta. - disse-lhe.
- Está bem. - e sorriu-me.
M
- Olha, não tens por aí uns calções e uma t-shirt? É que está um bocado de calor... - disse eu.
- Hum.. a minha mãe deve ter e eu empresto-te uma t-shirt minha. Vem comigo. - pegou-me pela mão e subimos as escadas até ao quarto dele. Ele foi ao quarto da mãe e trouxe uns calções de ganga e depois abriu uma das gavetas da sua cómoda e tirou de lá uma t-shirt da DC preta. - É do teu agrado? - sorriu.
- Sim. - sentei-me na cama e fiquei à espera que ele se fosse embora, mas não foi. - Olha sabes que eu quero vestir isto?
- Sei.
- Então e estás à espera do quê para ires lá para fora?
- Mia, eu ainda ontem te dei banho, não é preciso eu sair daqui. - teimoso e maroto, ainda por cima.
- Afff... está bem. - tirei a camisola e vesti a t-shirt; tirei as calças e olho para ele de relance e parecia que me estava a tirar as medidas com os olhos. - Epá, pára lá de me tirar as medidas se faz favor! - continuava de cuecas, só para ver a sua reação.
- É impossível não fazer isso, olha lá para o teu corpo, miúda. - e olhou para mim com uma cara mesmo descarada.
- Oh, por favor! Há bem melhor que isto.
- Nem digas isso! - começou-se a aproximar e fez-me uma festinha na face. - Olha bem para ti, Mia. - estávamos tão perto... Começou a descer a mão pelo meu corpo: ombro, braço, barriga e parou na cintura. Pousou as duas na minha cintura e puxou-me para ele. - Tu és linda. - fiquei tão corada, não me consegui controlar. Ele ficou a olhar para mim e sorriu, logo a seguir deu-me um beijinho no canto da boca.
- Beijinhos no canto da boca?! - pus os meus braços à volta do pescoço dele e beijei-o com todo o amor que tinha dentro de mim. - Assim sim.
- Acho que ainda não estou convencido... - notava na cara dele o desejo. Beijei-o novamente.
- E agora?
- Está melhor, mas acho que ainda não está perfeito...
- Oh, vai-te lixar! - disse, brincando.
- Então? Não fiques assim, oh princesa. Queres que eu te anime?... - novamente o seu sorriso maroto.
- Quero. - beijou-me intensamente e encostou-me à parede. Passados 5min ouviu-se a campainha. - Oh, logo agora que isto estava a ficar bom...
- Estavas a gostar, era?
- Estava. - fiz uma cara triste.
- Bom, bora lá comer pizza. - e deu-me um beijinho no nariz.
#13
M
- E as aulas Duarte? Estamos a falar às aulas, oh céus. - raramente faltava às aulas e, sinceramente, não gostava de faltar à escola. - E para justificar as faltas? Oh merda, estou fodida.
- Calma. Tenho tudo sob controle. À tarde vamos à escola e isso de justificar as faltas é canja. Pegas numa cena qualquer que a tua mãe tenha assinado, passas para papel vegetal, escreves a justificação e copias a assinatura do papel.
- Já deves ser um pro nisso, tu. - e bebi mais um gole de café.
- Não quero ser convencido, mas por acaso ya. - ri-me.
- Mas se ainda vamos à escola à tarde, tenho de ir a casa mudar de roupa e arranjar as cenas para a escola.
- Vamos depois de almoço. - o silêncio instalou-se naquele quarto. Mas logo ele o quebrou:
- Será que é desta que entro em tua casa? - suspirei e disse:
- Vá, deixo-te entrar só porque foste um fofinho ao fazer isto tudo. - ele sorriu com os seus dentes brilhantes.
D
Entretanto, eram já 10:18h e a Mia tinha ido para a sala, no piso inferior, ver televisão, enquanto eu tomava banho. Após ter tomado banho, vesti umas calças de ganga clara, uma t-shirt preta e uma hoodie da Element por cima. Calcei os meus habituais Merrell castanhos e desci até à sala. Sentei-me ao lado da Mia e pus o meu braço à volta dos seus ombros e ela chegou-se para mais perto de mim. Dei-lhe um beijo na cabeça e ela olhou para mim e sorriu. Sorri de volta. Gostava de a ver assim, feliz e... bem.
- Olha, por acaso não tens aí nenhum cigarro?... - perguntou-me. - É que deixei o meu maço em casa, antes daquilo.
- Sim, devo ter. Sabias que faço coleção de cigarros?
- Ah, interessante. Não, não sabia.
- Devo ter alguns repetidos. Podes fumar um ou dois. - subi as escadas até ao meu quarto e trouxe a caixa onde tinha guardados os cigarros que coleciono. Faço coleção há algum tempo, desde os 14 anos, porque o meu pai fuma e ele, cada vez que compra um maço que não é habitual ver, dá-me sempre um ou dois cigarros. Tenho-os guardados em sacos com etiquetas a dizer a marca e o ano em que os colecionei. Desci as escadas e sentei-me novamente no sofá. Mexemos e remexemos nos cigarros até que eu disse:
- Bom, tenho aqui vários repetidos, tipo os Marlboro e os Camel. Fuma um qualquer, só não fumes aqueles que só têm dois, por favor. - implorei. Gostava muito da minha coleção, não queria que ela fumasse um de cada.
- Está bem, acho que vou fumar um Marlboro. - pegou no saco dos Marlboro, tirou dois cigarros e voltou a fechar o saco com a etiqueta. Tirou também um isqueiro. - Queres?
- Posso-te fazer companhia. - Fomos para a marquise do meu quarto e eu abri duas janelas. Sentá-mo-nos nos puffs que eu tinha lá. Eram de pele castanha e bem confortáveis. A marquise não era muito grande, era de um tamanho normal para uma marquise. Gostava de ir para lá ler, ouvir música, tocar guitarra... Era como um refúgio. As paredes estavam pintadas de um bege claro e a decoração não era muita. Um tapete antigo e dois colchões de encher, para quando alguém cá vinha dormir. Dois candeeiros de pé e umas velas espalhadas por ali, com cheiro a baunilha. A minha mãe gostava muito dessas coisas, aliás, como poderia ela não gostar se é decoradora de interiores? Enfim, mulheres.
Já tinha lá um cinzeiro porque de vez em quando trazia lá os meus amigos e fumávamos, não só tabaco, como charros. Ela acendeu o seu cigarro primeiro e depois passou-me o isqueiro. Acendi o meu cigarro e ali ficámos os dois, a fumar. Momento nostálgico? Não, definitivamente. Este momento demonstrava o quão bem ela estava, o facto de ela estar a recuperar da morte da Leonor, de voltar a ser novamente ela. Não que nunca o tivesse deixado de ser.
- E então... como estás à cerca daquilo da Leo? - perguntei, para quebrar um pouco o gelo.
- Ainda nem tinha pensado nisso hoje. Mas acho que vou ficar bem. Contigo a meu lado acho que fico bem. - sorri. - E era assim que ela me gostava de ver, bem. A sorrir todos os dias. E é assim que vou permanecer. - deu uma passa no cigarro e pôs a cinza no cinzeiro.
#12
D
Eram 09:27h quando acordei. Ela estava a dormir que nem uma pedra e, visto que ela não iria acordar, decidi sair da cama e fazer o pequeno almoço. Não tinha muita coisa em casa porque costumava comer na escola, mas preparei-lhe café e pão com manteiga. Coloquei o pão num prato e o café numa caneca e pus tudo isto num tabuleiro, para lhe levar à cama. Cheguei lá e ela estava ainda a dormir. Pousei o tabuleiro na minha secretária e sussurrei-lhe ao ouvido:
- Good morning, sunshine. - ela abriu os olhos e esfregou-os lentamente.
- Hum.. bom dia. Que horas são?
- Nove e trinta e seis.
- Que dia é hoje? - ela estava confusa.
- 19 de setembro, quarta feira.
- E... o que é que eu estou aqui a fazer? Isto é a tua casa, Duarte?
- Lembraste do que fizeste ontem à tarde?
- Sim, isso lembro.
- Eu segui-te e vi... o que tu fizeste e era óbvio que não te deixava ali. Então trouxe-te para minha casa e ficaste cá a dormir. - ela ia começar a falar mas eu interrompi-a. - Não te preocupes, eu mandei uma mensagem à tua mãe a dizer que ficavas cá a dormir.
M
Eu realmente só faço é merda. Drogo-me e ainda dou trabalho às pessoas. Ao Duarte, ainda por cima. Ele vai ficar prejudicado por causa de mim, por causa deste grande monte de merda!... Ele é realmente um grande amigo. Nunca ninguém se teria dado ao trabalho de me seguir até Chelas, quanto mais trazer-me para casa! Só a Leo, só mesmo a minha Leo. A minha Nonô, por quem eu fiz isto tudo. Por quem eu me droguei e dei, e estou a dar, trabalho ao Duarte. Se ela me estiver a ver lá de cima deve estar a dizer tanto mal de mim... a rogar-me pragas por eu ter feito isto. Quando eu me droguei por causa do Rui ela fartou-se de ralhar comigo. Mas ficou comigo, sempre. Cuidou de mim, tanto por fora, como por dentro. Ela ajudou-me a ficar bem. A não ter recaídas. Fez tudo o que pode. E agora que ela... foi, eu fiz isto. Não consigo arranjar outra solução sem ser... drogar-me. Não sei, não sei porquê. Talvez seja isso que eu sou, uma drogada.
- Obrigada por tudo, a sério Duarte. Só a Leonor é que estava assim para mim como tu estás. - e as lágrimas vieram-me aos olhos.
- Aviso-te já que não tenho lenços em casa, por isso, nada de choradeira! - ri-me. Este rapaz... oh, este rapaz.
- Nem há palavras para ti, para te dizer o quão agradecida estou por isto! Fico-te a dever milhões.
- Podes pagar esses "milhões" com um sorriso e com uma saída, quando estiveres bem. - e sorriu. Aquele sorriso sedutor do primeiro dia de aulas. Ai ai.
- Vá, está bem. Mas só porque gosto muito de ti.
- Eu sei que sim. - dito isto, deu-me um beijo na testa e olhou-me nos olhos e disse "vai ficar tudo bem" e eu beijei-o. Um beijo cheio de segurança de que sim, ia ficar tudo bem.
M
O metro lá chegou a Chelas e eu saí da carruagem apressadamente. Eram 14:30h quando lá cheguei. Saí da estação do metro e, como já conhecia Chelas como a palma da minha mão, fui por um atalho para o beco onde o Felipe estava sempre. Cheguei lá, sã e salva, encontrei-o e disse:
- Olha quem é ele! - e dei-lhe dois beijinhos na face.
- Já não aparecias por aqui há muito tempo, miúda! Como é que tás?
- Para vir aqui é porque não estou lá muito bem, não achas? - disse, um pouco irritada.
- Calma miúda! Não te queria irritar. Mas o que se passou?
- A Leo morreu. Aquela rapariga que andava sempre comigo e que tu dizias que era uma boazona do caraças...
- Tás a gozar? Essa gaja mesmo boa morreu?... Boa pessoa, como é óbvio. - disse ele, atrapalhado.
- Ya, morreu. Num acidente.
- Tchi... que merda.
- Mesmo. Mas bem, passando ao que interessa, tens aí as cenas?
- Óbvio. - mostrou-me as coisas num saco. - Doze euros pá minha mão.
- Vá, toma lá. - dei-lhe o dinheiro e ele deu-me o saco. - Obrigada.
- Obrigado eu e volte sempre! - disse ele, num tom de gozo.
Fui-me embora dali para uma espécie de mato, onde poderia estar à vontade comigo própria e, acima de tudo, sozinha. Procurei um sítio onde ninguém me pudesse ver e esse sítio era uma árvore. Sentei-me junto a ela e pus um cinto à volta do meu braço, acima de onde me iria injetar. Apertei a mão várias vezes para que o sangue se direcionasse para aquela zona e, depois, foi só espetar a agulha. E logo um "boom" se instalou no meu corpo. Já só ouvi "Mia!" lá ao fundo, como se estivesse num túnel.
D
Segui-a passo a passo. Desde o metro até ao dealer e ao mato. De tal maneira ela se enfiou no mato, que andava neste preciso momento à procura dela. Raios, onde estava ela?... Finalmente, vejo um braço com um cinto e depois uma agulha. Merda, tarde de mais. Merda!
- Mia! Mia, não! Merda! - exclamei, cheio de raiva. Porquê? Porque é que eu tinha chegado tarde? Merda, porquê?
- O que... estás aqui a fazer? - disse ela, lentamente. Ainda bem que ainda estava consciente.
- Eu segui-te porque eu sabia que não estavas bem. E vi-te fazer isto. Porquê, Mia? Porquê?
- Tu... tu não percebes... Duarte. - depois começou-se a rir desalmadamente.
- Oh que bom, agora é que vão ser elas! - fiquei a pensar no havia de fazer e cheguei à conclusão de que deveria levá-la até minha casa, visto que não estava lá ninguém. Teria de a levar ao colo, não havia outra maneira.
Meti-me no metro e fui até ao Lumiar. Meia hora depois estava lá e carreguei-a até à minha casa. Abri a porta de casa e pousei-a no sofá da minha sala e ela riu-se.
- Duarte, onde estamos? - e continuava-se a rir, como se duma piada se tratasse.
- Em minha casa. - ela não estava nada bem, ainda se riu mais. Só me apetecia pegar nela e dar-lhe um banho. E foi o que realmente fiz. Despi-lhe as roupas e meti-a na minha banheira. Lavei-lhe o cabelo cuidadosamente e algumas partes do corpo. Obviamente que deixei as minhas hormonas de lado. Agora, já não se ria. Estava num estado lastimável. Olheiras e olhar carrancudo. Pobre Mia. Vesti-lhe umas cuecas da minha mãe e o sutiã que ela trazia e depois fui buscar uma camisola minha e umas calças de fato de treino. (...) Estava-se a fazer tarde, eram já 19h quando dei por ela. Decidi pegar no telemóvel da Mia e mandar uma mensagem à mãe dela:
"Olá mãe, hoje vou passar a noite em casa do Duarte, um amigo meu. Desculpa só avisar agora. Beijinhos, Mia"
Fiz o jantar e dei-lhe o comer à boca, não estava em condições para comer sozinha, por ela mesma. Quando eram 22:35h decidi que devíamos ir dormir porque ela estava cheia de sono e estava tão fraca. Levei-a ao colo e pu-la na minha cama. Vesti o pijama e ouvi ela a dizer, baixinho:
- Obrigada Duarte. E olha, és cá um pedaço... - sempre tão engraçada, ainda que estivesse naquele estado.
- Ahahah, como é que é possível seres engraçada no estado em que estás? - não obtive resposta. Deitei-me e abracei-a, aconchegando-a. Acabámos por adormecer.
11 comentários:
ADOOOOOOOOOOOOREI como é obvio *-*
Continua isto. Continua mesmo! Mas... Mesmo! A história é viciante.
Já sinto falta de passar por aqui e ter uma surpresa.
Anónimo 1: obrigada mesmo!
Anónimo 2: pois, sabes, não tenho tido grande tempo ou inspiração para continuar a história..
Sou a mesma pessoa. :)
Acredito.. Mas, espero que a continues. Gosto realmente.
irei continuá-la, claro.
já agora, não queres dizer quem és?:)
Não me conheces. Vim aqui parar ao acaso, andava a ver blogs. E como gosto de ler histórias, vim ler a tua. :)
está bem, mas podias sair de anónimo:)
História, história, que não continuas...
eu sei.. não tenho tido grande inspiração. desculpa.
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