Letra R - Ruiu
(...) e os meus olhos olhavam-te, tentando te dizer, com a minha boca completamente congelada por não me dares o beijo de despedida, para não ires embora.
as noites que passámos em frente da nossa lareira, tapados pelos nossos lençóis, naquela única divisão que era a nossa casa.
os dias, que pareciam infinitos, que passámos os dois de costas voltadas, para parecer uma cadeira, a ler livros e revistas, mas nunca chegámos a lê-los por completo, pois acabávamos sempre enrolados no nosso colchão enquanto o chão rangia.
eram aquelas 24horas que me mantinham viva, sorridente; essas 24horas que não fazíamos praticamente nada, ficávamos a olhar um para o outro e eu admirava a tua beleza de anjo, o teu corpo esbelto e perfeito (enquanto te despia com os meus olhos cor de cacau) e analisava cada traço do teu rosto, que ia desenhando na minha mente como o 1º plano do meu desenho.
mas tu partiste e agora a nossa suposta casa, está mais fria do que nunca. nunca mais acendi a lareira - ela para mim, significava a chama do nosso amor. cada vez que me deito naquele nosso colchão, sinto-o frio, e cada vez mais frio, a cada dia que passa. todos os dias, num papel, costumava marcar com traços à quantos dias me deixaste, mas deixei de os contar, porque já não interessa; não interessa à quantos dias partiste e ter esperança de que voltes, um dia.
deixaste apenas uma fotografia, mas também me deixaste a mim e, comigo, todas as memórias.
não devo de sair de casa à meses, estou com a mesma roupa desde o dia em que me deixaste e a minha cara continua a mesa desse dia: frágil e triste; não como desde à dois dias para cá, pois pretendo torturar-me e pensar "que mal fiz eu para me deixares sozinha?"
tudo o que faço me recorda de ti.
juntos, fomos tudo e nada, agora, tu és tudo e eu... sou nada.
ps: este texto não tem nada haver com o meu estado de espírito, é apenas um texto criativo.
